Basta de Queixas.
Basta de queixas.
(Jorge Forbes – Psicanalista, Psiquiatra e aluno de Jacques Lacan – Livro: Você quer o que você deseja?)
Todo mundo se queixa o tempo inteiro. Do tempo: um dia do calor, outro dia do frio. Do trabalho: porque é muito ou porque é pouco. Do carinho: “que frieza”ou “que melação”. Da prova: “dificílima” ou “fácil demais”. E dos políticos, da mulher, e do marido, e dos filhos, e dos tios, avós, primos, do pai, da mãe, enfim, de ter nascido. A queixa é solidária, serve como motivo de conversa, desde o espremido elevador até o vasto salão. Quem tem uma queixa, sempre encontra um parceiro. A queixa chega a ser a própria pessoa, seu carimbo, sua identidade: “Eu sou a minha queixa”, poderia ser dito.
A queixa deveria ser a justa expressão de uma dor ou de um mal-estar, mas raramente ocorre assim. É habitual que a expressão da queixa exagere muito a dor, até o ponto em que a dor acaba se conformando ao exagero da queixa, aumentando o sofrimento. É comum as pessoas acreditarem tanto em suas lamúrias que acabam emprestando seu corpo, ficando doentes, para comprovar o que dizem.
A causa primordial de toda queixa é a preguiça de viver. Viver dá trabalho, uma vez que a cada minuto surge um fato novo, uma surpresa, um inesperado que exige correção de rota na vida. Se não for possível passar por cima ou desconhecer o empecilho, menosprezando o acontecimento que perturba a inércia de cada um, surge a queixa, a imediata vontade de culpar alguém, vontade que pode ir aumentando até o ponto em que a pessoa chega a se convencer paranoicamente de que todos estão contra ela, que o mundo não a compreende e que por isso ela é infeliz, pois nada dá certo, enquanto outros, com menos qualidades, obtêm sucesso.
(…)
Por isso, toda queixa é narcísica.
(… )
Não confundamos: é importante separar a queixa narcísica da reivindicação justa, mas esse é outro capítulo. Aliás, é comum o queixoso se valer da nobreza das justas reivindicações sociais para mascarar seu exagerado amor-próprio.
Um momento fundamental em todo tratamento pela psicanálise é o dia em que o analisando descobre que não dá mais para se queixar. Não que as dificuldades tenham desaparecido por encanto, mas o “tirem isso de mim”, base de toda a queixa, perde o seu vigor, revela-se para a pessoa em todo o seu aspecto fantasioso. É duro não ter a quem se queixar, não ter nenhum bispo, um departamento de defesa dos vivos, como há o dos consumidores. A pessoa pode perder o rumo, não saber o que vai fazer, nem mesmo saber quem é.
( …)
Há que se ajustar a palavra à vida, conciliar a palavra com o corpo, fazer da palavra a própria pele até alcançar o almejado sentir-se “bem na própria pele”. Também será necessário suportar o inexorável sem se lastimar e abandonar a rigidez do queixume pela elegância da dança com o novo.