Comércio

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Ottone Zorlini,  Feira livre, Treviso 1954

Já passava de 1h da tarde e o sol estava tão forte, a ponto de a luz refletida do asfalto distorcer a árvores, pernas e qualquer coisa próxima ao chão. Nós já havíamos almoçado e eu aguardava o restante do grupo abrigada sob o toldo do restaurante. Os comerciantes famintos, exaustos e já um tanto irritados, desmontavam bancas da feira que acontecia ali em frente. Eu tentava fixar atenção em algum ponto mas só ouvia murmúrios velozes, jingles de campanha e barulho de metal caindo.

Eu o vi, ele não tinha muito mais do que 1 metro de altura. Uma notável diferença no alinhamento das omoplatas, fazia com que parecesse muito corcunda. Uma deformidade óssea, um defeito de nascença, um acidente na infância, quem sabe? Era um corcunda. Em cada um dos ombros ele apoiava diversos cintos. De um lado, os masculinos, do outro, femininos. Nas mãos, carteiras de diversas cores. Não eram nem mesmo falsificadas; não tinham marca nenhuma. Ele caminhava resoluto e parecia não haver cansaço. Tinha um objetivo muito bem definido, trabalhava com a motivação que só se vê em seminário empresarial. Procurava, naquele restante de feira, alguém que ainda quisesse comprar uma das suas mercadorias.

Não consegui mais desviar os olhos. Ele caminhava, e eu o seguia com a visão, imaginando que objetivo era aquele que o movia tão rápida e animadamente pelos restos de uma feira, como um executivo.

Não demorou muito para que ele notasse minha presença na calçada. Me ofereceu uma carteira vermelha, “doze reais, moça, eu faço a dez, quer comprar? “. Bati com as mãos nos bolsos e não tinha dinheiro.

Infelizmente, nesse tipo de comércio, não se aceita cartão.

“Outra hora eu compro”, eu disse. Ele seguiu caminho entre outras ilusões que um asfalto quente provoca. À medida em que ele sumia na distância, seus passos tortos iam ficando mais marcados na minha memória.

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