Tia

Tive uma tia – Deus a tenha – que era bem engraçada. Involuntariamente. Mas ainda assim nos divertia.
Ela não entendia ironias, sarcasmos, duplos sentidos, entrelinhas e, que dirá mensagens subliminares.
Quando a gente contava piada, ela ficava com pena do personagem principal. Sabe a piada do pintinho que não tinha *u? Ela ficou es-can-da-li-za-da quando a gente contou que o coitadinho explodiu. “Quanta crueldade com os animais!, vocês não têm pena do bichinho, não?” Esbravejou, disse que isso não era episódio de fazer graça.
As famigeradas piadas dos pontinhos, nem pensar. “O que significa uma ervilha atrás da porta, tia?” “Ah, gente, vocês andaram comendo escondido atrás da porta e deixam sujeira pra trás, depois querem fazer graça?”
Quando assistia jogos dizia “agora esse aí que está ganhando deveria deixar o outro fazer gol também, coitado, senão a torcida dele fica triste”. Ela falava super sério, em tom grave. Não sofria de analfabetismo funcional, não tinha problemas com interpretação de texto.
Era professora, ela.