Baby

 

Na minha casa tinha tinha um radinho verde escuro, que sintonizava através de um dial giratório, você também já deve ter visto muitos se nasceu nas décadas de 70 e 80.
O nosso ficava na cozinha e fazia a trilha sonora dos nossos cafés da manhã. Eu me lembro que a programação da rádio não era muito variada, tinha alguma coisa de mpb. Todos os dias tinha Canteiros do Fagner e Baby, com a Gal Costa.
Eu ia pelo caminho da escola cantarolando essas duas músicas.
Ontem tive a oportunidade de ver a Gal cantando Baby a uns 10 metros de mim. Uma oportunidade única e emocionante, não só de transpôr o limite do radinho verde, mas de tocar de novo as minhas lembranças: minha família, o pão quentinho com cheiro de café, o caminho da escola, o vento batendo no rosto, o uniforme azul e branco. Não preciso nem dizer o quanto esse foi um show que me emocionou.

 

Você precisa tomar um sorvete

Na lanchonete, andar com gente

Me ver de perto

 Ouvir aquela canção do Roberto.

Você precisa, você precisa, você precisa…

Sensatez

Ele me pediu em casamento numa terça a noite, enquanto comíamos sanduíche com Tubaína em um lugar tão lindo quanto retrô no centro da cidade. Eu fiquei atordoada, disparei a falar, a contar uma história tão longa, quanto desprovida de propósito ou sentido.

Ele ficou me olhando de um jeito estranho, a uma expressão facial de quem não entendeu nada. Podia-se ler: “Caramba, será que isso é um sim ou não?”

Se eu demorasse mais dois minutos naquela enrolação, acho que ele faria um gabarito no guardanapo e diria “Marque a alternativa desejada”.

(   ) SIM

(   ) NÃO

[Até que provem o contrário, esse é o melhor jeito de lidar com gente de exatas.]

Um tempo depois, quando eu me concentrei, percebi que não era uma conversa dessas que se tem todo dia e consegui responder.

“Sim, claro que eu quero”. Eu queria muito, eu não me imaginaria dividindo uma vida completa com outra pessoa que não fosse ele.

E depois que ele me deixou em casa, eu tomei uma atitude sensata e madura.

Comprei um sapato.

**

“Sabe, a sorte é como o Tour de France. Esperamos tanto, e passa tão rápido. Quando chega a hora, precisa saltar sem hesitar.” [Trecho o filme O Fabuloso Destino de Amelie Poulain]

 

Tia

Tive uma tia – Deus a tenha – que era bem engraçada. Involuntariamente. Mas ainda assim nos divertia.
Ela não entendia ironias, sarcasmos, duplos sentidos, entrelinhas e, que dirá mensagens subliminares.
Quando a gente contava piada, ela ficava com pena do personagem principal. Sabe a piada do pintinho que não tinha *u? Ela ficou es-can-da-li-za-da quando a gente contou que o coitadinho explodiu. “Quanta crueldade com os animais!, vocês não têm pena do bichinho, não?” Esbravejou, disse que isso não era episódio de fazer graça.
As famigeradas piadas dos pontinhos, nem pensar. “O que significa uma ervilha atrás da porta, tia?” “Ah, gente, vocês andaram comendo escondido atrás da porta e deixam sujeira pra trás, depois querem fazer graça?”
Quando assistia jogos dizia “agora esse aí que está ganhando deveria deixar o outro fazer gol também, coitado, senão a torcida dele fica triste”. Ela falava super sério, em tom grave. Não sofria de analfabetismo funcional, não tinha problemas com interpretação de texto.
Era professora, ela.